Caros,
Gostaria de expor alguns pensamentos meus a respeito dessa questão que nos divide.
Antes, preciso explicar como acredito que surgiu essa necessidade por certificações: imagine que uma empresa (Compradora) quer contratar outra (Desenvolvedora) para desenvolver um sistema. Para iniciar a seleção, ela estabelece alguns critérios mínimos. Por exemplo: a Desenvolvedora deverá ter um processo bem definido de gerenciamento de requisitos e de planejamento e acompanhamento de projetos. Depois ela poderia visitar as selecionadas para verificar aquelas que aderem melhor ao que ela quer. Imagine agora que esse mesmo longo processo deverá ser seguido por todas as Compradoras do país, por exemplo. O mercado percebe isso como desperdício. E para resolver esse problema, ele criou empresas avaliadoras que atestam que determinadas empresas seguem a determinados critérios. E essa atestação pode ser aproveitada por todas as Compradoras.
Mas esse modelo induziu o mercado a algo que acho ruim, que é esse esquema de níveis de maturidade. Se a minha empresa não atender a todos os pontos de um determinado nível, eu simplesmente não recebo a graduação. E essa esquema de graduação é muito ruim pois induz o mercado a pensar de forma extremamente maniqueísta: por exemplo, ou você é nível 2 do CMMI ou você não é nada. Mesmo que minha empresa atenda a [n-1] dos [n] itens exigidos pelo nível 2 do CMMI, eu simplesmente continuo sendo nível 1 aos olhos do CMMI. Mesmo que eu não tenha atendido a esse tal item de forma deliberada, por entender que ele não agrega nada à minha empresa, que sou mais eficiente sem ele. O modelo contínuo do CMMI resolve de certa forma esse problema, mas o estagiado é muitíssimo mais popular - eu nunca ouvi falar de nenhuma empresa que tenha adotado o modelo contínuo. Ou seja, dos males o maior.
Outros problemas de modelos como o CMMI e o MPS.BR são sua rigidez e complexidade. Implantá-los custa uma fortuna, muito mais que as avaliações em si, que giram em torno de R$50.000,00 e R$8.000,00 respectivamente, fora custos de estadia dos avaliadores e cursos obrigatórios que devem ser feitos. Essa questão econômica leva a um fato preocupante: a exclusão das pequenas empresa desse modelo, pois não têm escala suficiente para bancar certificações como essas. E aqui entra outra percepção errada do mercado. Pelo que observo, a maioria avassaladora dos projetos de "software" que conheço, inclusive de grandes compradores como HP e Siemens, é desenvolvida por equipes pequenas, de no máximo 15 pessoas. Ou seja, todas as pequenas empresas teriam condições de tocar essa maioria de projetos, mas não tem condições financeiras de arcar com a implantação de modelos como CMMI e MPS.BR. Só para esclarecer: os números que citei acima referem-se apenas à avaliação, e de cada nível. Para ficar mais claro, então: o custo total da implantação do nível G (mais baixo) do MPS.BR aqui na empresa custou por baixo R$60.000,00.
Aproveito para deixar clara uma opinião que venho repetindo muito ultimamente: para empresas que não têm processos definidos, acho que modelos como o CMMI e o MPS.BR agregam valor, sim. Vou dar um exemplozinho: a empresa em que trabalho tem 18 anos. Na nossa história, nunca havíamos entregue um projeto, de razoável complexidade, no prazo. E conseguimos isso pela primeira vez utilizando algumas práticas do MPS.BR. É bastante sintomático, não é? É claro que por trás desse fato de nunca termos entregue um projeto no prazo há suas motivações, seus porquês, suas justificativas, que não convém discutir aqui. Mas isso nos causou em várias momentos muitos problemas. A implantação do MPS.BR melhorou sim nossa forma de desenvolver "software". Só que descobrimos um jeito ainda muitíssimo melhor: XP. Observação: com a implantação de XP aqui na empresa, abandonamos tudo, absolutamente tudo que havíamos definido com a implantação do MPS.BR.
Finalizo lançando uma idéia intermediária, como acho que as coisas deveriam se comportar, haja vista que acredito que o mercado nunca vai aceitar o "desperdício" citado no segundo parágrafo: poderíamos ter empresas avaliadoras cujo trabalho seria apenas atestar através de relatórios como as empresas desenvolvedoras trabalham. Nesse relatório seriam citadas as práticas utilizadas, quais os problemas, quais as vantagens, etc. Sem níveis, sem certificações. Apenas um relatório descritivo. E esse relatório, na verdade, seria elaborado pela empresa desenvolvedora e passado pelo crivo dessas avaliadoras. O relatório deveria ser aprovado pelas duas empresas.
Sei que não é adequado escrever um texto tão longo numa lista de discussão, mas acho impossível ser conciso ao analisar um assunto tão complexo.
Um abraço.
Clavius Tales
Diretor de Desenvolvimento
Fortes Informática [Fortaleza]
(85)4005-1111
tales@...
www.fortesinformatica.com.br
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